A história de uma rede municipal de ensino que se propôs a ‘desemparedar’ suas crianças

Rita conta que o trabalho que vem realizando nos últimos oito anos foi inspirado por uma história que aconteceu durante o final do inverno, época do ano que o sol está a pino e as temperaturas mais altas, quando os professores sentem-se convidados a irem para o lado de fora. “Posso sair da sala de aula e ler histórias para as crianças debaixo de uma árvore?”, perguntou uma professora para sua coordenadora.

Com a resposta positiva, lá foi ela levar seus alunos para um momento prazeroso de mediação de leitura, no quintal da igreja do bairro, o espaço verde acessível mais próximo da escola. O quintal estava enfeitado com pés de laranja carregados de frutas. No meio da leitura, uma criança interrompeu: “Mas, professora, quem jogou as laranjas no chão?”

A professora, na hora, achou graça da pergunta ingênua da criança, e não deixou transparecer a sua indignação por perceber o quanto seus alunos estavam desconectados da natureza, ao desconhecerem o processo natural das frutas de caírem no chão quando maduras e não coletadas.

O distanciamento dos processos de vida e morte que acontecem o tempo todo na natureza, e que são importantes para a criança por trazerem um reconhecimento da condição do humano, é um dos sintomas da alienação em relação à natureza. Este fenômeno foi chamado de Transtorno do Déficit de Natureza pelo jornalista americano Richard Louv, que associa a ausência da natureza na infância à diminuição no uso dos sentidos, à agitação e ao aumento do nível de doenças mentais e físicas em nossas crianças (veja, no final deste post, alguns links de textos já publicados pelo Conexão Planeta sobre esse especialista).

A Secretaria de Novo Hamburgo, desde então, reconheceu a importância de investir no propósito de desemparedar, conceito defendido pela professora Lea Tiriba, que destaca a importância de conquistar espaços que estão para além dos muros escolares: terreiros, jardins, plantações, riachos, descampados, etc., que podem ser explorados como lugares de aprendizagem onde se ouvem histórias, se desenha, se brinca, se relaxa e se trabalha uma grande diversidade de conhecimentos.

Mas como começar? O espaço verde, por si só, não garante o contato da criança com a natureza. É preciso começar pelos educadores, conquistar os espaços externos das escolas junto com eles e oferecer-lhes experiências diretas, afetivas e sensoriais, para que eles também se reencontrem com a natureza e acessem a sua criança interior como fonte nutridora de sua dimensão lúdica.

As reuniões com os educadores passaram a ser ao ar livre. Ouvir o barulho do mar que as conchas guardam, fazer comidinhas com terra e enfeitá-las com flores e folhas, passaram a ser atividades realizadas na formação dos educadores.

Os pais também precisavam estar alinhados com esse novo caminho. “Quais eram as lembranças mais marcantes de sua infância?” Era a pergunta que batizava a primeira reunião de pais ao ar livre, com direito a piquenique. Também os pais foram convidados a lembrarem de sua infância, quando voltar para casa depois da escola e passar o resto do dia brincando na rua era normal. O intuito era despertar o desejo de proporcionar experiências similares para seus filhos e ajudar a escola a se transformar em um lugar de infância feliz e saudável para as crianças.

Era preciso então transformar os pátios das escolas, que além de serem lugares abertos, são espaços onde relações, percepções e descobertas acontecem e onde a conexão da criança com a natureza se inicia.

Mas como garantir essa prática sem recursos? “É importante trabalhar com o que temos”, defende Rita. “Não importa o tamanho do terreno e, sim, a riqueza de possibilidades que o espaço oferece. Tem mais a ver com a concepção do que um espaço deve ter para potencializar o brincar integrado a natureza do que com recursos investidos. A criatividade e a parceria dos pais foram chaves para conseguir materializar nossa proposta”, acrescenta.

Os materiais necessários são simples, muitos reaproveitados. Balanços feitos de tecidos, tábuas apoiadas em árvores para facilitar a subida em suas copas, o desnível do terreno como parede de escalada, o escorregador com pranchas de papelão, cordas amarradas entre as árvores como escadas, tábuas apoiadas em pedras como pontes. Estes são alguns exemplos de muitos que vi. Soluções simples, criativas e de baixo custo que potencializam o rico brincar em contato com a natureza.

Emocionei-me em ver crianças brincando de forma diária na natureza, com tempo, liberdade e permissão para explorar e desafiar-se. Lindo ver que esse trabalho é fruto do projeto sério e bem fundamentado de uma rede municipal que entende que a aprendizagem ocorre por meio das brincadeiras, do contato com as outras crianças e com os elementos da natureza.

 

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