Redescobertas

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girl-690327_1920Angelina tinha uma vida comum. Casada, mãe de dois filhos. Em sua juventude, trabalhou em uma fábrica de refrigerantes e em uma ótica. Quando as crianças nasceram, parou de trabalhar para cuidar dos filhos. Viu as crianças cresceram, educou-os da melhor forma de pode, ajudou o marido em atividades que não conseguia efetuar por causa do trabalho em tempo integral. Por muitos anos, sua vida foi totalmente voltada à família.

De repente, um buraco abriu embaixo de seus pés. O casamento, que já não ia bem há algum tempo, chegou ao fim. A família, para a qual ela havia dedicado sua vida, estava desmoronando.

Seu coração estava cheio de sentimentos que doíam. A perda do marido. A dúvida sobre se o amor continuava a existir, ou se o que restava era apenas o costume e a posse. A palavras trocadas que vinham às lembranças como se fossem tapas e socos.

Mas não era só sua vida afetiva que parecia um fracasso. Também doía a vida profissional da qual abriu mão pela família. As pessoas que deixou de conhecer pelo marido. Tudo o que deixou de fazer que, agora, parece ter sido em vão.

Doía ter deixado de olhar para si e cuidar de si mesma pela família. Doía cada vez que ela deixou de fazer o que queria para satisfazer o desejo da família. Cada viagem que ela não fez, cada passeio que ela deixou de lado.

Doía especialmente ter perdido o seu propósito de vida: a família.

Claro, seus filhos continuavam lá. Mas agora já não era igual. A estrutura familiar já não estava lá. A responsabilidade aumentou, as tarefas agora não podem ser mais divididas. Perdida em seus pensamentos e sentimentos, ela tenta se esquecer um pouco de si – como fez durante toda a vida – para dar suporte aos filhos que também passam por um momento difícil.

Mas isso não é tudo.

Ela precisa de dinheiro, precisa se manter, sustentar os filhos. A pensão não é certa e nem suficiente para todas as despesas com as crianças. Sem contar, que agora ela também precisa pagar o aluguel.

E como ela vai trabalhar?

Deixou de trabalhar há muitos anos, já não tem mais nenhuma conexão com o mercado profissional. Voltar a trabalhar significa começar do zero, provavelmente longe da sua experiência, ganhando um salário mínimo que não é o bastante para todos os gastos da casa.

E como ela vai trabalhar?

As crianças vão para a escola pública por meio período. Com quem vão ficar o resto do tempo? Quem vai os levar e buscar na escola?


Angelina é uma personagem fictícia, mas sua história se materializa na vida de muitas mulheres Brasil afora, que se viram sem o marido após terem optado por se doar completamente para a família por anos.

O momento da reconstrução de si nunca é fácil. Passa pela redescoberta da mulher enquanto mulher, dos seus anseios que continuam lá, escondidos e enterrados em alguma parte de si. Passa pela redescoberta da família, agora em uma nova estrutura nem sempre bem aceita pela sociedade. Passa pela redefinição do seu propósito de vida, daquilo que a tira da cama e a faz seguir em frente.

Por isso, precisamos sempre estar dispostas a apoiar aquelas que passam por situações especialmente difíceis como essa. Apoiar pode se traduzir em doar algo que elas precisem, ajudar a cuidar das crianças, a descobrir uma forma de trabalho sem se afastar dos filhos, ou até mesmo com um ombro amigo.

Você também tem uma história de redescoberta e ressignificação? Compartilhe conosco para que possamos inspirar umas às outras para se encontrar em tantas mudanças da vida. Envie sua história de superação para [email protected]. As histórias sempre serão contadas com nomes fictícios para preservar a identidade dos personagens.

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